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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

A amizade e a colaboração intelectual entre Peter Gast e Nietzsche


Peter Gast


Ontem foi comemorado o dia do amigo e tão logo lembrei da incrível amizade que foi de fundamental importância para Nietzsche.

A relação entre o filósofo alemão e Johann Heinrich Köselitz - Peter Gast é uma das amizades mais marcantes na história da filosofia. Köselitz, que mais tarde adotaria o pseudônimo de Peter Gast, criado por Nietzsche, foi um amigo fiel e colaborador intelectual de Nietzsche por cerca de vinte anos. 

A importância dessa amizade influenciou o trabalho filosófico de ambos. 

A amizade entre Nietzsche e Gast começou em 1876, quando eles se conheceram na Universidade da Basiléia, onde Nietzsche era professor de filologia clássica. O jovem Gast se aproximou de Nietzsche com entusiasmo e admiração, impressionado com sua personalidade magnética e suas ideias revolucionárias. Gast rapidamente se tornou um confidente próximo de Nietzsche e começou a desempenhar um papel fundamental em sua vida. 

Gast era uma figura discreta, sempre leal e pronta para ajudar Nietzsche em todas as circunstâncias. Ele assumia tarefas práticas, cuidando das necessidades diárias do filósofo, como a correspondência, cuidados com a saúde e a organização de seus escritos. Nietzsche apreciava imensamente a dedicação de Gast, tendo a ele se referido como o "mordomo mais bonito" que já teve e ainda referi-se ao amigo como "o leão de Veneza", devido às suas composições líricas e por Peter ser de Veneza. 

A parceria entre Nietzsche e Gast não se restringiu apenas às tarefas de apoio prático, mas também envolveu significativa colaboração intelectual. Gast era um crítico atento das obras de Nietzsche, oferecendo sugestões e insights valiosos durante as fases de escrita e revisão. Ele também foi um dos primeiros a reconhecer a importância da obra de Nietzsche, incentivando seu amigo a continuar sua busca filosófica única.

Nietzsche, em seu discreto senso de humor, afirmou que Peter Gast foi quem realmente escreveu "Humano, demasiado humano", e que ele havia apenas ditado o escrito.

A influência de Gast na obra de Nietzsche foi sutil, mas significativa. Ele desempenhou um papel fundamental na concepção e edição de algumas das obras mais importantes do filósofo, incluindo "Assim Falou Zaratustra" e "Genealogia da Moral". A presença de Gast nas ideias de Nietzsche é ainda mais evidente em seu último e enigmático trabalho, "Ecce Homo", que é dedicado a ele.

Infelizmente, a amizade entre Nietzsche e Gast teve um fim triste e abrupto. Em janeiro de 1889, Nietzsche sofreu um colapso mental, colocando um ponto final em sua carreira filosófica e na amizade com Gast.

Nietzsche passou seus últimos anos em um estado de completa incapacidade, enquanto Gast pouco ou nada pode fazer a respeito.

Gast desempenhou um papel essencial na vida e no trabalho de Nietzsche, oferecendo apoio prático, contribuições intelectuais valiosas e uma amizade leal. 

Embora a amizade tenha chegado a um fim trágico, o legado de Gast vive nas obras de Nietzsche e na memória de sua colaboração intelectual notável.

Até breve!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Recomeços...


"Minha fórmula para a grandeza do homem é o Amor Fati: 
Não querer nada de outro modo, nem para adiante, nem para trás, 
nem em eternidade. 
Não meramente suportar o necessário, e menos ainda dissimulá-lo,
mas amá-lo".

O conceito de Amor Fati, ou "amor ao destino", foi introduzido pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Segundo Nietzsche, o Amor Fati é a aceitação incondicional e apaixonada de tudo o que acontece em nossa vida, incluindo nossas circunstâncias, escolhas, erros e sucessos. É a crença de que tudo o que acontece está intrinsecamente ligado ao nosso crescimento pessoal e que devemos abraçar cada momento como parte fundamental de nosso caminho.

No contexto de nosso dia a dia, o Amor Fati nos ensina a importância de abraçar as experiências positivas e negativas que encontramos. Muitas vezes, tendemos a resistir e fugir de situações desconfortáveis ou desfavoráveis, buscando apenas o prazer imediato. No entanto, o Amor Fati nos incentiva a aceitar essas situações e entendê-las como oportunidades de crescimento e aprendizado. 

"Quero cada vez mais aprender a ver como belo
aquilo que é necessário nas coisas. Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!“

Em nossas vidas, é comum enfrentarmos desafios, fracassos e obstáculos. O Amor Fati nos ensina a abraçar essas dificuldades como parte do processo de desenvolvimento humano. Ao invés de nos lamentarmos ou desistirmos quando as coisas não saem como planejado, é essencial adotarmos uma atitude de aceitação e aprendermos com cada experiência.

O recomeço é uma parte fundamental do Amor Fati. Todos nós cometemos erros e, por vezes, nos encontramos em situações nas quais não queremos estar. No entanto, o Amor Fati nos encoraja a ver essas situações como oportunidades para reavaliar, reinventar e avançar em direção a um novo começo. Ao abraçar cada recomeço em nossas vidas, nos permitimos crescer, aprender e nos tornar mais resilientes.

Além disso, o Amor Fati também nos ajuda a aproveitar o presente e encontrar alegria nas pequenas coisas do dia a dia. Ao aceitarmos completamente as situações em que nos encontramos, não somos mais prisioneiros da insatisfação ou da busca eterna por algo melhor. Podemos encontrar beleza e gratidão no momento presente, valorizando cada instante como um presente único.

Em suma, o Amor Fati nos convida a abraçar cada aspecto de nossa vida, incluindo as experiências positivas e negativas, como partes integrantes de nosso crescimento pessoal. A importância dos recomeços em nossas vidas está em aprendermos com nossos erros, crescermos com cada situação desafiadora e encontrarmos alegria e gratidão no presente. Ao adotarmos esta forma de pensar e agir, nos tornamos mais resilientes, flexíveis e capazes de enfrentar as adversidades com coragem e sabedoria. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Aforismos

Por definição, "aforismo é qualquer forma de expressão sucinta de um pensamento moral. Do grego “aphorismus”, que significa “definição breve”, “sentença”. 

A escrita por meio de aforismos é a grande marca  do trabalho filosófico de Nietzsche. Boa parte de seus escritos são aforísticos e fragmentados e sintetizam grandes reflexões. Nietzsche escreve conforme as coisas vem à sua mente. 

Nietzsche tinha o claro objetivo de fazer com que o leitor "ruminasse" de forma lenta e consistente  cada aforisma e assim compreendesse o que está sendo colocado, não como uma algo inquestionável mas, como algo a ser pensado.

O filósofo alemão tece sua crítica à toda a estrutura do pensamento Ocidental, pois para ele trata-se da história de um erro. Para Nietzsche a base do pensamento socrático-platônico, a moral, o Cristianismo e o sentido de bem e mal adoeceram o ser.

Em sua II Consideração Intempestiva (1874), ele afirma que a essência de sua profissão enquanto filólogo, é:

"Agir contra a sua época, sobre sua época, e em benefício de uma época vindoura".

Assim, Nietzsche molda sua forma de pensar totalmente fora da caixa. 

Em seu livro Aurora (1886), Nietzsche expressa em seu prefácio a forma e o cuidado que o leitor deve ter em relação a seus textos:

[...] Este prefácio chega tarde, mas não demasiado tarde; que importam,

por fim, cinco ou seis anos? Tal livro e tal problema não têm pressa; e,

além disso, nós somos amigos do ‘lento’, eu, assim como o meu livro. Não

fui, em vão, filólogo, e ainda o sou talvez. Filólogo quer dizer mestre na

leitura lenta, e que acaba por escrever lentamente. Mas não é que seja isto

somente um hábito em mim, é um prazer mau, um prazer maligno talvez?

Não escrever outra coisa senão o que poderia desesperar aos homens que

‘se apressam’. Pois a filologia é essa arte venerável que antes de tudo exige

uma coisa de seus admiradores: manter-se à parte, ir devagar, tornar-se

silencioso, tornar-se lento; como uma arte de ourivesaria e uma perícia no

conhecimento da ‘palavra’, uma arte que exige um trabalho delicado e que

não realiza nada se não trabalhamos com lentidão. [...] Esta arte, a que

me refiro, não termina facilmente nada; ensina a ler ‘bem’, quer dizer, a

ler de trás para frente, a ler devagar, com profundidade, com pensamentos

íntimos, com dúvidas e precauções, com dedos e olhos delicados... Amigos

pacientes, este livro somente pede leitores e filólogos perfeitos: ‘aprendei’

a ler-me bem".

A intenção de Nietzsche ao lançar suas ideias por meio de aforismos é justamente instigar seus leitores a pensarem, a lançarem questionamentos a respeito do que é lido, é pensar profundamente a respeito de algo. Inclusive, nos dias atuais esse método de leitura precisa ser restaurado. 

E como disse Nietzsche no prólogo de sua Genealogia da Moral: "Nosso tesouro está na colmeia de nosso conhecimento. Estamos sempre voltados a essa direção, pois somos insetos alados da natureza, coletores do mel da mente."

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

"Eu sou vários"

"Eu sou vários! Há multidões em mim.

Na mesa de minha alma sentam-se muitos,e eu sou todos eles.

Há um velho, uma criança, um sábio, um tolo.

Você nunca saberá com quem está sentado ou quanto

tempo permanecerá com cada um de mim.

Mas prometo que, se nos sentarmos à mesa,

nesse ritual sagrado eu lhe entregarei ao menos

um dos tantos que sou, e correrei os riscos

de estarmos juntos no mesmo plano.

Desde logo, evite ilusões: também tenho um lado mau,

ruim, que tento manter preso e que 

quando se solta me envergonha.

Não sou santo, nem exemplo, infelizmente.

Entre tantos, um dia me descubro,

um dia serei eu mesmo, definitivamente.

Como já foi dito: ouse conquistar a ti mesmo".

Há muitos anos este pensamento anda comigo. Ele expressa toda a pluridade do ser humano, com seus altos e baixos, angustias e alegrias e o próprio reconhecimento de que temos um lado mau e que em alguns casos nos envergonham. 

Por muitos anos acreditei que esta máxima teria sido escrita por Nietzsche. Entrtando, neste tempo que dedico à pesquisa dos ecritos de Nietzsche, numca encontrei esta passagem.

Procurei por muito tempo, e só agora percebí que estava às voltas no local errado. Acabei descobrindo sem querer ao assistir um vídeo da filósofa brasileira Scarlett Marton, cujo tema tratado era "Niilismos". 

Pois bem, quem escreveu esta máxima foi o escritor português Fernando Pessoa por meio de seu heterônimo "Ricardo Reis". 

É muito interessante perceber Fernando Pessoa aos olhos da Psicanálise, pois ele criou seus heterônimos e cada um tinha personalidade própria, inclusive com data de nascimento  e de morte. Mas não para por aí. 

"Por exemplo, consta que Ricardo Reis nasceu em Porto,

Portugal, no dia 19 de setembro de 1887. 

Estudou em colégio de jesuítas e formou-se em medicina.

Ricardo Reis era monarquista e exilou-se no Brasil,

em 1919, por discordar da Proclamação da República Portuguesa.

 Foi profundo admirador da cultura clássica,

tendo estudado latim, grego e mitologia. 

Sóbrio e claro, sustenta a convicção de que o

único caminho a se tomar na vida é o

de afrontar a sorte com o silêncio.

{...}

A ideia desenvolvida em sua obra faz parte

do pensamento Greco-romano: clareza, equilíbrio,

as boas formas de viver, o prazer e a serenidade.

Além do epicurismo, Ricardo Reis possuía o

estoicismo também como influência,

que propõe a aceitação do acontecimento

das coisas e a rejeição às emoções e sentimentos exacerbados".

Um ponto interessante é que na biografia de Fernando Pessoa não é localizada a data da morte de Ricardo Reis. Mas o escritor brasileiro José Saramago em seu livro "A morte de Ricardo Reis" a situa em 1936.

Às vezes, quando penso em Fernando Pessoa, algo me liga ao filme "Fragmentado". Neste filme o personagem principal, Kevin (James McAvoy), possui 23 personalidades distintas. No caso do filme, Kevin tem o que a medicina chama de Transtorno dissociativo de personalidade. Este transtorno apresenta incapacidade de recordar eventos diários, informações pessoais importantes ou eventos traumáticos ou estressantes, todo os quais tipicamente não seriam normalmente perdidos com o esquecimento normal. A causa é quase invariavelmente trauma opressivo na infância. Mas está é uma área que a Psicanálise não pode atuar. 

Em essência a Psicanálise, ou melhor, seu método terapeutico age por meio de lembranças trazidas à tona, ou seja, um processo investigativo onde a lucidez das lembranças constroem um panorama e a partir daí o processo é estartado. Por esse motivo não temos objeto de estudo com uma pessoa com transtorno dissociativo de personalidade. 

Voltando a Fernando Pessoa, não acredito que ele tivesse esse transtorno. Acredito sim que ele foi um escritor genial, com um modo de pensar múltiplo, típico dos pensadores de sua época. 

Fernando Pessoa construiu 25 heterônimos, que são: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, António Mora, Charles James Search, Alexander Search, António Seabra, Barão de Teive, Bernardo Soares, Carlos Otto, Charles Robert Anon, Coelho Pacheco, Faustino Antunes, Frederico Reis, Frederick Wyatt, Henry More, I. I. Crosse, Jean Seul, Joaquim Moura Costa, Maria José, Pantaleão, Pêro Botelho, Raphael Baldaya, Thomas Crosse e Vicente Guedes.

Assim, só um mestre na escrita como Fernando Pessoa, para construir heterônimos tão únicos.

Mais um mito desfeito, e dessa vez foi extremamente positivo pois pude ter o prazer em iniciar meu mergulho nas obras de Fernando Pessoa, e ele sim, foi vários!

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Filosofia e Psicanálise

Quem conhece este blog sabe que tenho como meta trazer o pensamento de Nietzsche para os dias atuais. Confesso que a cada dia fico mais pensativa em relação à leitura que Nietzsche realizou de toda a história do pensamento ocidental. 

Questionamentos sempre me vêem à mente, do tipo: O que fazer com essa perspectiva? Ou, como agir entendendo que tudo o que é não vem a ser? Pois bem, foram questionamentos como estes que me fizeram mergulhar no mundo da Psicanálise. 

Compreeder o ser humano em sua totalidade é uma meta buscada há milênios pela Filosofia. E talvez por isso ela me chame a atenção de maneira tão forte. E não foi nada diferente quando iniciei meus estudos em Psicanálise.

Em essência, a dinâmica da terapia psicanalítica envolve a análise pessoal, de forma que a pessoa passa a olhar para si profundamente, desde seus primórdios (infância) até a vida adulta. E assim acaba por localizar pontos não resolvidos que refletem comportamentos disfuncionais no hoje. Por isso o processo psicanalítico é lento e gradual, pois quem determina esse tempo é o próprio analisando. Conforme ele vai mergulhando em si e vai se ouvindo, tem início sua reflexão. 

Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, foi o primeiro a pensar o inconsciente como fundamento dos processos psíquicos. Em seu texto "Uma dificuldade da Psicanálise [1917]", Freud apresenta de forma muito bem explicativa o que é a Psicanálise e a que veio. (Indico a leitura deste texto para quem deseja entender os princípios da Psicanálise direto da fonte que a criou).

Importante pontuar o que Freud descreve a respeito de sua Teoria da Libido:

"O que procurei delinear com essas indicações é a teoria libidinal das neuroses, sobre a qual se baseiam todas as nossas concepções acerca da natureza desses estados patológicos e o nosso procedimento terapêutico para combatê-los. É claro que também consideramos válidos os pressupostos da teoria da libido para o comportamento normal. Falamos de narcisismo do bebê e atribuímos ao intenso narcisismo do homem primitivo o fato de ele crer na onipotência de seus pensamentos e de querer influir no curso dos eventos do mundo mediante a técnica da magia".

É a partir da explanação sobre a essência da clínica psicanalítica que Freud fala a respeito do que ele nomeou como as "três duras afrontas" por parte da pesquisa científica em relação à humanidade. A respeito disso, o filósofo esloveno Slavoj Žižek em seu livro "Como ler Lacan", diz o seguinte:

"Freud desenvolveu a ideia de três humilhações sucessivas sofridas pelo homem, as três “doenças narcísicas” como as chamou. Primeiro Copérnico demonstrou que a Terra gira em torno do Sol, e assim privou-nos a nós, seres humanos, do lugar central no Universo. Depois Darwin demonstrou que emergimos da evolução cega, e nos tomou nosso lugar de honra entre os seres vivos. Finalmente, quando Freud descobriu o papel predominante do insconciente em processos psíquicos, revelou-se que nosso eu não manda nem mesmo em sua própria casa".

Freud foi incisivo em sua afirmação, principalmente no que diz respeito ao sujeito não controlar nem mesmo sua própria "casa", ou seja:

"Em determinadas doenças, e justamente nas neuroses que estudamos, as coisas são diferentes. O Eu se sente mal, depara com limites a seu poder em sua própria casa, a psique. De repente surgem pensamentos que não se sabe de onde vêm; tampouco se tem como expulsá-los. Esses hóspedes desconhecidos parecem até mais poderosos do que os submetidos ao Eu; resistem a todos os meios coercivos da vontade, aprovados em muitas ocasiões, e permanecem imperturbados ante a refutação lógica, indiferentes ao desmentido da realidade. Ou ocorrem impulsos que parecem os de outro indivíduo, de modo que o Eu os renega, mas tem de receá-los e tomar precauções contra eles. O Eu diz a si mesmo que se trata de uma doença, uma invasão estrangeira, e aumenta a vigilância, mas não pode entender por que se sente paralisado de maneira tão estranha".

(Obs: Na tradução da Companhia das Letras, o tradutor Paulo César de Souza, usa "Eu" e não "Ego").

Ao final do texto, Freud afirma que não foi a Psicanálise quem deu o primeiro passo no sentido do inconsciente. E que sim, filósofos de renome é que foram os precursores nesse sentido, e cita Arthur Shopenhauer como exemplo:

"Filósofos de renome podem ser citados como precursores, sobretudo o grande pensador Schopenhauer, cuja “vontade” inconsciente se equipara aos instintos da mente na psicanálise. É o mesmo pensador, aliás, que lembrou aos homens, em palavras de impressão inesquecível, a sempre subestimada relevância de seus impulsos sexuais". 

A intersecção entre Filosofia e Psicanálise é uma realidade, pois ao serem unidas, quem ganha é a individualidade do ser. 

Ao meu ver a Psicanálise veio como uma formidável ferramenta que conecta o ser com a Filosofia. Mas o que a Psicanálise nos mostra é que apenas a pessoa, o analisando (a), pode trilhar esse caminho de conhecimento pessoal e assim educar-se emocionalmente para lidar mais facilmente com seus problemas cotidianos. 

Infelizmente a maioria das pessoas não tem noção de si, vive sua vida em função dos outros ou aguardam uma melhora para sua vida  que seja externa. Apelando assim ou para remédios ou para a religião. Em ambos os casos, vejo como processos paliativos e que mais cedo ou mais tarde, permitem que voltem todos os seus sintomas. 

A Psicanálise é um processo investigativo do ser por ele mesmo e tem como mediador um psicanalista. Por isso o caminho do analisando é de dentro pra fora e só ele, com o auxílio de um bom analista, pode chegar à essência de seus problemas. 

A verdade é que nunca fomos educados para olharmos para nós mesmos e cuidarmos de nosso emocional. Com isso, formamos uma noção própria que em muitos casos não bate com a realidade.

Por isso, para quem estiver lendo este artigo, proponho que olhe para si com mais carinho e atenção. Você é muito importante para ser deixado de lado. Cuide de si para poder cuidar de quem você ama, só assim você vai aprender o sentido da TUA vida. 

E para não dizer que não citei Nietzsche... "Ouse conhecer a ti mesmo".

Até breve!

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Um caminho sem fim

Há cinco anos, quando escrevi o artigo Estratégia para ler Nietzsche, não imaginava que teria a aceitação que teve de meu público.

De lá para cá, várias questões me foram levantadas a respeito dessa estratégia mental que formei para melhor compreender este filósofo tão controverso e tão mal compreendido da filosofia moderna.

Assim sendo, quando o tema é filosofia, quanto mais nos aprofundamos, maiores são os questionamentos que nos envolvem e raras são as respostas.  E em Nietzsche essa proporção ganha uma escala imensa pois, para tentar compreendê-lo, precisamos desbravar caminhos tortuosos. E neste ponto é necessário ter um norte fixo em mente para não nos perdermos.

É preciso traçar um plano de vôo preciso. Digo isso pois pesquisei, a princípio, quais eram as leituras de cabeceira de Nietzsche, bem como seus filósofos preferidos, assim como os que ele citava como desprezíveis, sendo Sócrates, o grego aclamado pela sociedade Ocidental, um deles. Sem falar em Immanuel Kant.

Mas não pense você que apenas por Nietzsche rechaçar esses filósofos, não precisamos ter contato com seus trabalhos. Pelo contrário, são estes trabalhos que nos fazem entender a mente inquisidora de Nietzsche, que levanta pontos que passam batidos em uma leitura rasa e sem compreensão.

Seguindo esse caminho, um ponto se faz necessário. Deve-se buscar um entendimento profundo do que foi o Helenismo Grego e os seus reflexos. Por este motivo Nietzsche chega a afirmar que a verdadeira filosofia está no mundo pré-socrático. 

Por conseguinte, é preciso um trato muito grande em relação ao pensamento nietzschiano. Não podemos ser rasos ao ler Nietzsche. Precisamos ir além de suas palavras.

Em seu livro "A Gaia Ciência", no capítulo intitulado "Brincadeira, Astúcia e Vingança - Prelúdio em rimas alemãs", Nietzsche nos traz sessenta e três aforismas que tocam em temas variados, e no aforisma 54 ele faz a seguinte afirmação:

"Bons dentes e bom estômago -

Eis o que lhe desejo!

Se der conta de meu livro,

Certamente se dará comigo!"

Não podemos ler Nietzsche apenas em busca de uma forma de autoajuda, ou até mesmo como a meta de achar soluções para nossos problemas pessoais. Nietzsche não é a autoajuda que conhecemos atualmente. Ele usa o martelo, ou melhor, a marreta, para nos levar para uma coisa muito maior e dinamitar nossa razão socrática. Ele nos chama a atenção para a tentativa do entendimento do que é o ser humano.  E essa, meus caros, é uma explicação que atormenta o ser humano desde os tempos mais remotos.

Acredito que, neste momento,  meus leitores podem perceber que o trato necessário para ter contato com Nietzsche é trabalhoso. Sim, trabalhoso porém  necessário para encontrarmos o verdadeiro Nietzsche. 

O Nietzsche que anseia e que expressa em seus escritos uma forma diferente de ver o mundo sem as amarras do molde socrático-platônico-cristão. Um exemplo claro disso é Zaratustra. Onde ele fala que só o amanhã  a ele pertence.  Na esperança de que gerações futuras venham a ter a sensibilidade para entender o que ele quis dizer.

Por este motivo, não podemos nos deter a ler os livros mais comentados de Nietzsche. Isso nos afastaria dele. Devemos conter nosso apetite e ler Zaratustra e O Anticristo depois de adentrar o universo de Nietzsche. Só assim teremos olhos e ouvidos para entender o que ele quis nos mostrar. Pois são leituras que nos chocam. São leituras muito fortes para pessoas que não estão previamente preparadas para o que ele quer nos mostrar.

Não afirmo aqui que sou totalmente favorável a tudo que Nietzsche nos coloca. Tenho meus pontos sensíveis, valores com os quais fui criada e que pesam... Mas Nietzsche trata disso de forma necessária.  Porém, quando minha digestão mental vai além, dou um tempo e volto quando estou pronta.

Não pensem que em dezoito anos de estudos sobre Nietzsche eu não briguei com ele... Já cheguei a falar que nunca mais falaria com ele... Mas como toda paixão tem seus arroubos e momentos de questionamentos, voltei ainda mais apaixonada... Porém, como já disse anteriormente em outro artigo, minha paixão virou amor e as coisas estão mais calmas... 

Entretanto, percebo que as pessoas mundo a fora amam Nietzsche por seus aforismas, mesmo que estes, em sua maioria, mostrem-se apenas como frases de efeito que fazem sentido apenas naquele momento, mas que fazem sentido de alguma forma.

Nietzsche tem esse poder de chamar a atenção de leigos. Entretanto, para continuar a tê-lo como mentor, é preciso muito trabalho. E é aí que muitos desistem.  E só quem tem olhos, ouvidos e vontade de pesquisar e persistir nesse caminho para encontrá-lo, realmente dá início a essa caminhada sem fim.

Assim se faz essa vida caminhante da filosofia. Uma caminhada sem fim. Mas para quem acha seu norte é um caminho apaixonante e com tantos questionamentos que faltam vidas para chegarmos onde realmente queremos. 

Por isso leitor, embarque nessa viagem.  Garanto que você não se arrependerá de adquirir conhecimentos e valores que vão muito além do que nossa sociedade atual, medíocre, nos ensina. E que nos fazem apenas ruminar valores perdidos e sem sentido.

Até breve!!!

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Foucault e a Loucura

Muito se tem falado sobre o tema "Saúde Mental". Enquanto psicanalista, minha missão é auxiliar as pessoas que me procuram, de forma que elas iniciem o processo de análise pessoal e compreendam o que as faz mal, o que as incomoda. Tendo noção disso, a pessoa entra no processo de reestruturação de pensamentos e atitudes. Percebam aqui que a palavra chave é "processo". Para alguns esse processo é mais lento e para outros mais longo. Porque cada ser humano tem seu tempo próprio de amadurecimento e de ter a tão necessária noção se si como algo relevante.

É certo que hoje, em pleno século XXI, os meios para entender e tratar a saúde mental mostram-se eficazes em sua causa maior. Contudo, nosso século, mesmo sendo o de maior acesso à informação por meio da popularização da internet, acaba por trazer muita desinformação em uma área em que já existem tabus por demais, estigmas demais e o próprio medo de levantar este tema.

Pois bem, ao falarmos sobre saúde mental, ao menos do ponto de vista filosófico ou sociológico, é imprescindível falarmos de Michel Foucault.

Foucault é considerado uma das mentes mais brilhantes do século XX. A seu respeito trarei dois comentários relevantes para que vc leitor que pode ainda não conhecer Foucault tenha uma ideia de seu trabalho:

"Michel Foucault foi um intelectual que exerceu uma ação e influência

consideráveis em vários ramos do saber: na filosofia, na psiquiatria,

na psicologia, na história, na sociologia, na antropologia, nas artes e na política.

Teve uma trajetória acadêmica brilhante e uma atuação militante

política expressiva. Foi uma das cabeças mais lúcidas que nosso século passado produziu".

Oswaldo Giacoia Junior

{...}

"O que o estimula, o que o move é pensar diferentemente, é pensar de outro modo

[…] Só alguém com uma grande liberdade de pensamento pode trazer

temas novos na contramão de seu tempo".

Margareth Rago

Herdeiro declarado de Nietzsche, Foucault usa o método genealógico do filósofo alemão com a intenção de alcançar um entendimento a cerca de temáticas fortes e incômodas, fora da caixa, fora do que já foi dito, fora do que já estava estabelecido como verdade absoluta.

Em sua tese de doutorado na Sorbone, sob o tema "Loucura e Desrazão", que logo depois virou um livro intitulado "História da Loucura na Era Clássica", ele escreve o que considero o maior e mais profundo trabalho a respeito da loucura.

Foucault realiza o que ficou conhecida como uma pesquisa "arqueogenealógica", ou seja, ele usa o método genealógico unido ao arqueológico para entender a estrutura de como a loucura foi entendida desde o século XIII até meados do século XX. Tratamos aqui de um trabalho audacioso, que nos traz uma visão clara de como a loucura foi encarada de formas variadas que se adequavam à moral vigente de cada época. 

O ponto que acredito ser o mais absurdo foi o que ficou conhecido como "O Grande Internamento". Como fator histórico é difícil compreender porque este acontecimento foi silenciado, mas Foucault viu justamente aí um fundamento muito forte e que tem sua conexão com os dias atuais e mais à frente ficará mais claro.

O grande internamento aconteceu entre o início do século XVII até meados do século XIX. Lembrem aqui que o século XVII foi marcado pelo Iluminismo com Descartes como o grande porta voz da razão. Como a razão passou a ser a mãe de toda a perfeição almejada pelo ser, tudo o que fugisse disso deveria ser retirado da sociedade. É nesse ponto que Estado e Clero decretam que todas as pessoas que fugiam do padrão deveriam ser consideradas loucas e internadas. 

Quem eram essas pessoas que deveriam ser internadas? Todas as pessoas consideradas um problema para a sociedade, ou seja, mendigos e seus filhos, prostitutas, homessexuais, filhos pródigos que dilapidavam suas heranças, mulheres que não se sujeitavam a seus maridos, alcoólatras, militantes políticos, mães solteiras. Quem decidia que a pessoa deveria ser internada não era um médico, mas um juíz.

Essas pessoas passaram a ser encaminhadas para os antigos leprosários, condenadas a uma forma de prisão perpétua cujo crime cometido era o de existirem. E aí percemos que a "loucura" foi usada como nome para todas as pessoas que eram consideradas um problema para a sociedade. Assim, com a "limpeza das ruas", a aristrocracia tinha acesso à ruas limpas, sem mendigos, passando a impressão de que o Estado estava cuidando dessas pessoas e de que a Igreja estava cuidando dos desvalidos.

Para vocês terem uma ideia, o grande internamento chegou ao Brasil. Sim, em nosso país. Chegou aqui bem atrasado, já no início do século XX, quando na Europa já havia sido abolido. Dentre várias intituições, a que foi considerada a pior em todos os setores foi o Hospital Colônia de Barbacena, que foi considerado pelo médico italiano Franco Baságlia uma forma de campo de concentração nazista devido ao trato com seus internos. Parece absurdo, mas esta instituição só foi fechada completamente em 1990 com a reforma psiquiátrica que houve no Brasil.

Foucault traz à tona que na verdade não estávamos falando de loucos ou de hospitais psiquiátricos mas sim de grandes presídios. No caso da Europa, o fim desse ciclo deu-se no início do século XIX, quando Philippe Pinel, um psiquiatra, começa a visitar esses locais e a denunciar os maus tratos. E a mostrar que a grande maioria que encontrava-se nesses locais não era de loucos, mas sim pessoas que viviam à margem da sociedade.

Assim, Foucault define três momentos que definem a loucura através do último milênio:

{...}

 "Indiferenciação (séculos XV e XVI), onde não havia distinção

 entre loucura e saber, o louco era um estranho que peregrinava livremente;

a Segregação (séculos XVII e XVIII), onde a loucura passa a ser

excluída da razão e enclausurada, apesar de não muito bem percebida;

 e a Medicalização (séculos XIX e XX), quando a loucura começa a ser

entendida como “doença mental”, se tornando objeto médico e de tratamento."

(Curso Fenomenologia e Psicologia - Ex-isto)

Para Foucault, a loucura no Renascimento era aceita como algo livre, tratada como algo digno de arte, como Jerónimo Bosch bem expessou em suas pinturas no século XV. Quando o Iluminismo toma conta do cenário e a razão torna-se a chave mestra da evolução humana, a loucura é vista como desrazão e todas as pessoas que eram consideradas o problema da sociedade foram tiradas de circulação e expostas às piores formas de tortura, por não serem adequadas ao momento. Só no século XIX é que a loucura passa a ser encarada como caso clínico, digno de pesquisa e tratamento adequado.

Analisando todo esse cenário, percebemos que os estigmas a cerca da loucura tiveram suas raízes plantadas em solo fértil e esse descaso perdura até os dias atuais. 

O medo ao tratar desse tema nos remete ao aprisionamento e principalmente ao estigma de tornar-se um pária da sociedade, já que as pessoas passam a ter medo de pessoas assim.

Contudo, os tratamentos estão muito avançados nessa área e pessoas podem ser tratadas com remédio e terapia. E quando não, ao menos encontrarmos locais adequados para que essas pessoas tenham o cuidado necessário. 

Estou ciente de que a humanidade ainda tem um longo caminho no estudo da loucura como a entendemos e percebemos hoje, mas entender como ela foi trabalhada através dos últimos séculos nos traz uma compreensão de que nem o Estado, nem a Igreja ou a Política devem passar perto do tema com seus preceitos morais e de "limpeza da sociedade". 

Pessoas que vivem à margem da sociedade sempre existiram e sempre existirão, mas o que não pode ser aceito é que simplesmente por estarem no local em que estão, possam ser usadas como uma espécie de sujeira e que quando melhor aprouver sejam jogadas para baixo do tapete.

A grande luta de Foucault, que percebemos por toda sua obra, é em nome dessas pessoas que margeiam nossa sociedade. As instituições psiquiátricas e os presídios sempre foram o foco modal deste filósofo.

Em seu livro "Doença Mental e Psicologia", Foucault afirma que:

“Nunca a psicologia poderá dizer a verdade sobre a loucura,

 já que é esta que detém a verdade da psicologia.”

Percebemos que a visão do filósofo está muito mais próxima do entendimento da loucura como era vista no Renascimento, mas este é um tema para um outro artigo.

Quem quiser saber mais a respeito de Foucault, seu pensamento e sua obra indico a página "Colunas Tortas", de Vinicius Siqueira. Esta página é um oásis para quem busca o entendimento do pensamento deste filósofo francês que, assim como Nietzsche, foi muito além de seu tempo em sua crítica à sociedade.

Até breve!

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Nietzsche e Emerson

Este é o quarto artigo de uma série voltada a falar a respeito de personalidades que Nietzsche admirava. Vocês bem podem perceber que tratamos aqui de um grupo extremamente seleto, ao menos é o que ele deixa claro no livro "Crepúsculo dos Ídolos".

A personalidade que tratatrei no artigo de hoje é Emerson (Ralph Waldo Emerson), um estadunidense que foi poeta, conferencista, filósofo, orador, autor de ensaios e criador de uma filosofia transcendentalista.


A seu respeito, Nietzsche afirma: 

"13- Emerson - Muito mais esclarecido, errante, múltiplo, refinado
do que Carlyle, sobretudo mais feliz... Alguém que se nutre apenas
de ambrosia, que deixa de lado o que é indigesto nas coisas.
Comparado a Carlyle, um homem de gosto. - Carlyle que dele
muito gostava, dizia dele, porém: "não nos dá o suficiente para
morder": o que pode ser dito com justiça, mas não em detrimento
de Emerson. - Emerson tem a boa e espirituosa jovialidade que
desencoraja toda a seriedade; ele simplesmente não sabe o quão
velho já é e quão jovem ainda será - ele poderia dizer de si mesmo,
citando Lope de Vega: "yo me sucedo a mí mismo". Seu espírito
sempre acha motivos para estar satisfeito e até mesmo agradecido;
e às vezes roça a jovial transcedência daquele bom sujeito que voltou
de um encontro amoroso tanquam re bene [como de uma coisa bem
feita]. "Ut desint vires", disse agradecido, "tamen est voluptas" [Embora
faltem as forças, é de louvar a volúpia, no entanto]."

O ponto desta citação que me chama a atenção, é quando ele afirma: "ele não sabe o quão velho já é e o quão jovem ainda será", mas para que esta afirmação faça sentido a você leitor, vamos avançar um pouco no tempo para mostrar-mos os reflexos da filosfia transcedentalista de Emerson.

Emerson foi um dos grandes influenciadores filosóficos de dois movimentos norte americanos do século XX que vieram a influenciar todo o comportamento das gerações que as sucederam. Estou falando aqui do movimento "Beatnik", nas décadas de 40 e 50, e o movimento "Hippie" nas décadas de 60 e 70.

Podemos explicar o nome "beatnik" para esse movimento de duas formas. A primeira refere-se ao significado de "beat" que quer dizer rítmo ou batida, e estaria ligada com a influência do Jazz que estava muito forte neste momento. Já o sufixo "nik" está relacionado ao lançamento do satélite soviético Sputnik na década de 50. 

Já a segunda interpretação, está relacionada a um dos representantes desse movimento que foi Herbert Huncke, ele utilizava o termo no sentido de "cansado", ou seja, o cansaço da vida.

Quando paramos para analisar a sociedade estadunidense da década de 40, podemos ver que a geração beatnik estva inserida no contexto do pós Segunda Guerra Mundial e os Estados Unidos viviam uma euforia econômica que era refletida em um consumismo exacerbado. As pessoas envolvidas neste movimento criticavam o conformismo, a hipocrisia e a alienação de sua época. O comportamento do grupo em resposta a isso, era um estilo de vida simples, despreocupado e conviviam com pessoas com as quais tinham afinidades. Pregavam o sexo livre, o uso indiscriminado de álcool e drogas e andavam por quase todo o território do país. Entretanto, o movimento Beatnik foi marcado também por produções literárias e artísticas e ficou marcado na história como um forte movimento de contracultura e que veio pouco tempo depois a influenciar o outro movimento ao qual me referí acima, que é o movimento Hippie.

O movimento Hippie teve início na cidade de São Francisco (EUA) e tinha como objetivo o amor livre, o respeito à natureza, o pacifismo, uma vida simples e sem preocupações consumistas. 

Agora, retornando a Emerson, trarei uma citação dele que foi formulada após conhecer, em sua primeira viagem pela Europa em 1833, o "Jardim des Plantes", uma espécie de jardim botânico, e que foi responsável por uma mudança de pensamento muito forte nele. A citação diz o seguinte:
 
"A Natureza é uma língua, e cada novo facto
que aprendemos é uma nova palavra; mas
esta não é uma língua repartida em pedaço
 e morta num dicionário, mas antes uma língua construída
num sentido mais significativo e universal. Quero aprender
esta língua, não para conhecer uma nova gramática,
 mas para poder ler o grande livro que está escrito nesse idioma."

Emerson buscava entender a natureza e sua conexão com a transcendência no ser. Em sua época ele foi pouco compreendido, mas as gerações futuras, como os beatniks e os hippies, buscaram em sua filosofia uma forma de alicerçar a sua visão de mundo que era contrária ao que na prática acontecia na sociedade estadunidense da época.

Acredito que agora fica claro quando Nietzsche refere-se a Emerson como "não tendo a noção do quão velho estava e o quão jovem ainda seria". Pois bem, alguns anos depois, o pensamento de Emerson foi a base de um movimento criado por jovens, contra uma sociedade altamente consumista e que impunha um grande não à todas as pulsões dos ser. 

Por mais que os movimentos de contracultura choquem a sociedade, eles são necessários pois expressam todas as amarras que prendem a sociedade a um estado moral que gera uma forma de cláustro nas pessoas, sem dinamismo, sem andamento, sem liberdade de ideias e de questionamentos. 

Lembrando aqui que esses movimentos tem sim seus exageros, como o uso de drogas exacerbado, contudo, são em momentos assim que a arte é expressa plenamente, seja por meio da música, da literatura, da poesia ou da pintura. Os movimentos de contracultura, de certa forma, servem para que seja feita uma forma de "up-grade" na sociedade, deixando os mortos no lugar dos mortos e os vivos para agirem plenamente.

Eis aqui a jovialidade de Emerson aos olhos de Nietzsche.

Até breve!

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Nietzsche e Dostoiévski

Esta semana estou fazendo um apanhado do que vi de interessante em minha releitura de "Crepúsculo dos Ídolos" e tive a ideia de compartilhar isso com vocês. 

Tratei aqui da admiração de Nietzsche por Tucídides e por Goethe, mas não poderia deixar de falar da apreciação do filósofo alemão pelo escritor russo Fiódor Dostoiévski.

Dostoiévsk foi um célebre escritor, filósofo e jornalista russo que produziu romances, novelas, contos, escritos jornalíticos e escritos críticos. Foi representante do realismo russo e trabalhou em seus livros temáticas fortes, concernentes ao ser humano como: assassinato, suicídio, humilhação, autodestrição, tirania, loucura, morte, liberdade, responsabilidade individual, religião...

Seus livros mais conhecidos são "Crime e Castigo"(1886) e "Os irmãos Karamazov"(1881), entretanto, para Nietzsche seu romance preferido é "Recordações da casa dos mortos"(1862) e em realação a este livro e a Dostoiévski, o filósofo afirma o seguinte no capítulo IX -"Incurssões de um Extemporâneo":

45 {...}

"- Dostoiévski, o único psicólogo, diga-se de passagem, do qual

tive algo a aprender: ele está entre os mais belos golpes de sorte

de minha vida, mais até do que a descoberta de Stendhal. Esse

homem profundo, mil vezes correto em sua baixa estima dos

superficiais alemães, percebeu de modo muito diverso do que

esperava os detentos siberianos entre os quais viveu por longo

tempo, autores de crimes graves, para os quais não havia mais

retorno à sociedade - como sendo talhados na melhor, mais dura

e mais valiosa madeira gerada em terras russas".

Ao conhecer os escritos de Dostoiévski, Nietzsche ficou extasiado, elencando-o para o seu seleto rol de gênios. Basta olharmos de perto o pensamento do escritor russo descrito em seus livros para entendermos o motivo do encanto Nietzsche. Por toda a produção literária de Dostoiévski, fica claro sua objetividade, a ausência de idealizações, a crítica sóciopolítica, seus heróis contraditórios, o ceticismo, o niilismo e o homem em conflito com deus. Essas são algumas das marcas que fizeram com que Nietzsche visse Dostoiévski com tão bons olhos.

O elo de ligação entre os dois é justamente a marca de uma existência angustiada guiada por questões acerca do bem e do mal, pecado e redenção e tantos outros dualismos que tiram o ser humano de seu eixo tornando-o um ser doente.

Para Nietzsche o sofrimento é necessário e pode ser usado como uma ponte para o crescimento interior. 

Ao escrever sobre o Amor Fati, Nietzsche nos convida a amarmos nosso destino, do jeito que ele se apresenta, seja com suas alegrias ou com suas agruras.

Lou Salomé, a russa que foi o grande amor de Nietzsche, foi uma mulher muito além de seu tempo e sobre ela escreverei um artigo mais adiante. Assim que os dois se conhecem, Nietzsche compartilha com ela seu pensamento em relação ao Amor Fati, e tão logo ela escreve um poema que o leva às lágrimas pois exprime de forma cálida o seu pensamento em relação à vida e neste momento vai de encontro com o pensamento de Dostoiévski. O poema chama-se "Hino à Vida" e diz:

"Tão certo quanto o amigo ama o amigo,

Também te amo, vida enigma

Mesmo que em ti tenha exultado ou chorado,

Mesmo que me tenhas dado prazer ou dor.


Eu te amo junto com teus pesares,

E mesmo que me queiras destruir,

Desprenderme-ei de teus braços

Como o amigo se desprende do peito amigo.


Com toda força te abraço!

Deixa tuas chamas me inflamarem,

Deicha-me ainda no ardor da luta

Sondar mais fundo teu enigma.


Ser! Pensar milênios!

Fecha-me em teus braços:

Se já não tens felicidade a me dar

Muito bem: dai-me teu tormento."

Para Nietzsche, a aceitação da vida como ela é, é parte essencial para que o ser se desenvolva plenamente e que o sofrimento molda espíritos livres. Certamente esta não é uma ideia agradável dentro dos moldes ocidentais de pensamento mas nos gera inúmeros questionamentos, e estes sim são ferramentas necessárias para o crescimento do ser.

Até breve... 


quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Nietzsche e Goethe

Em meu artigo anterior tratei da forma da escrita de Nietzsche e sua reverência a Tucídides, o grande escritor e general na Guerra do Peloponeso.

No livro Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche tece uma forma de sabatina com os escritores, filósofos e líderes dos últimos dois mil e quatrocentos anos. Óbvio que dentro disso encontram-se os mais importantes pensadores de suas épocas, e o filósofo do martelo não tem papas na lingua e segue dinamitando  o pensamento dessas ilustres personalidades, que até então eram incontestes no que faziam.

Entretanto, duas personalidades históricas saem ilesas, e não apenas ilesas, mas elogiadas por Nietzsche. O primeiro foi Tucídides, o ateniense, e o segundo foi Goethe.

Johann Wolfgan Von Goethe foi um polímata e escritor alemão, reconhecido mundialmente por sua obra "Fausto", livro este admirado e relido inumeras vezes pelo pai da Psicanálise, Sigmund Freud.

Mas Goethe não foi um escritor reconhecido apenas por uma obra, muito pelo contrário. Quando em 1774 foi publicado seu romance "A paixão do jovem Werther", o frisson entre a juventude foi generalizado. Os jovens passaram a vestir-se como as personagens do romance. O assunto nas rodas de amigos era o grande desfecho da obra. E esta obra foi tão celebrada, ao ponto de algumas pessoas terem cometido suicídio assim como o fez Werther, em seu trágico destino na obra.

Como citei acima, Goethe foi um polímata, ou seja, uma pessoas de múltiplos saberes. Todo o seu pensamento tinha como solo fértil a sua curiosidade em relação a tudo que lhe chamasse a atenção e o que ele desconhecia, estudava profundamente a ponto de se tornar um astuto conhecedor do tema em questão. 

Goethe tinha aversão por quatro coisas, as quais dizia que a ele eram insuportáveis, "fumo de tabaco, percevejos, alho e a cruz" e nesse ponto Nietzsche cita que eles tem uma coisa em comum, a aversão à cruz, ou seja, ao Cristianismo.

A respeito de Goethe, Nietzsche diz o seguinte:

"Goethe - não um acontecimento alemão, mas europeu:

Uma formidável tentativa de superar o século XVIII com um retorno

à natureza, com um ascender à naturalidade da Renascença, uma espécie

de autossuperação por parte daquele século.

Ele carregava os mais fortes instintos deste: a sensibilidade, a idolatria

da natureza, o elemento anti-histórico, o idealista, o irreal e revolucionário

(- sendo este último uma forma de irreal).

Ele recorreu à história, à ciência natural, à Antiguidade, também a Spinoza,

sobretudo à atividade prática; cercou-se apenas de horizontes delimitados;

não se desprendeu da vida, pôs-se dentro dela; não era desalentado, e tomou

tanto quanto era possível sobre si, acima de si, em si. O que queria era a totalidade;

combateu a separação da razão, sensualidade, sentimento, vontade (- pregada, com

horrendo escolasticismo, por Kant, o anípoda de Goethe), disciplinou-se para a

inteireza, criou a sim mesmo...

{...}

Goethe é o último alemão pelo qual sinto reverência". 

A óbvia reverência de Nietzsche a Goethe reflete o arquétipo de ser humano, que Nietzsche percebia como um "ser superior", o ser que supera a si mesmo, que vê além, que não usa a moral como ferramenta de "auto-flagelação", o ser que é livre por natureza e busca em sua vontade o conhecimento de si e tudo a sua volta. Este é o ser imaginado por Nietzsche e personificado em Goethe.

Toda a filosofia nietzschiana gira em torno da construção de um ser humano livre das amarras do pensamento socrático-platônico-cristão que moldou uma forma de "animal doente", preso na ilusão de felicidade plena apenas em um outro "mundo" (o mundo das idéias de Platão ou o paraíso cristão) e para merecer isso é necessário abrir mão da própria natureza humana, pois a vontade é um erro, os prazeres do corpo são considerados crimes sob pena de merecer "o inferno".  

Nietzsche percebe toda essa problemática, da voz ao seu pensamento e o constrói de forma muito bem alicerçada e como prêmio ganha a alcunha de "louco", "drogado", "pai ideológico do nazismo" e tantos outros absurdos com os quais nos deparamos por aí. 

Por esse motivo é de fundamental importância para quem tem interesse em Nietzsche, beber direto na fonte dele e assim, de forma arqueológica, entender seu pensamento e o seu projeto de "humanidade" livre de amarras que adoecem o ser. Este é o meu trabalho e o realizo com muito carinho. E o que me move é a vontade de conhecimento que é parte do meu ser...

Caro leitor, o que te move? O que te faz querer mais de si e da vida? 

Estes são ótimos questionamentos, que nos fazem descobrir o que somos realmente, o que queremos de nossas vidas, o que buscamos enquanto realização de nós mesmos... Ao chegarmos nesse ponto, a própria força reativa existente no ser nos dá força para encarar a dura luta do dia a dia...

E, finalizando, deixo este aforisma de Nietzsche para uma boa reflexão...

"Se te apetece esforçar, esforça-te;

se te apetece repousar, repousa;

se te apetece fugir, fuja;

se te apetece resistir, resista;

mas saiba bem o que te apetece, e não recue ante nenhum pretexto,

porque o universo se organizará para te dissuadir".