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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Recomeços...


"Minha fórmula para a grandeza do homem é o Amor Fati: 
Não querer nada de outro modo, nem para adiante, nem para trás, 
nem em eternidade. 
Não meramente suportar o necessário, e menos ainda dissimulá-lo,
mas amá-lo".

O conceito de Amor Fati, ou "amor ao destino", foi introduzido pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Segundo Nietzsche, o Amor Fati é a aceitação incondicional e apaixonada de tudo o que acontece em nossa vida, incluindo nossas circunstâncias, escolhas, erros e sucessos. É a crença de que tudo o que acontece está intrinsecamente ligado ao nosso crescimento pessoal e que devemos abraçar cada momento como parte fundamental de nosso caminho.

No contexto de nosso dia a dia, o Amor Fati nos ensina a importância de abraçar as experiências positivas e negativas que encontramos. Muitas vezes, tendemos a resistir e fugir de situações desconfortáveis ou desfavoráveis, buscando apenas o prazer imediato. No entanto, o Amor Fati nos incentiva a aceitar essas situações e entendê-las como oportunidades de crescimento e aprendizado. 

"Quero cada vez mais aprender a ver como belo
aquilo que é necessário nas coisas. Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!“

Em nossas vidas, é comum enfrentarmos desafios, fracassos e obstáculos. O Amor Fati nos ensina a abraçar essas dificuldades como parte do processo de desenvolvimento humano. Ao invés de nos lamentarmos ou desistirmos quando as coisas não saem como planejado, é essencial adotarmos uma atitude de aceitação e aprendermos com cada experiência.

O recomeço é uma parte fundamental do Amor Fati. Todos nós cometemos erros e, por vezes, nos encontramos em situações nas quais não queremos estar. No entanto, o Amor Fati nos encoraja a ver essas situações como oportunidades para reavaliar, reinventar e avançar em direção a um novo começo. Ao abraçar cada recomeço em nossas vidas, nos permitimos crescer, aprender e nos tornar mais resilientes.

Além disso, o Amor Fati também nos ajuda a aproveitar o presente e encontrar alegria nas pequenas coisas do dia a dia. Ao aceitarmos completamente as situações em que nos encontramos, não somos mais prisioneiros da insatisfação ou da busca eterna por algo melhor. Podemos encontrar beleza e gratidão no momento presente, valorizando cada instante como um presente único.

Em suma, o Amor Fati nos convida a abraçar cada aspecto de nossa vida, incluindo as experiências positivas e negativas, como partes integrantes de nosso crescimento pessoal. A importância dos recomeços em nossas vidas está em aprendermos com nossos erros, crescermos com cada situação desafiadora e encontrarmos alegria e gratidão no presente. Ao adotarmos esta forma de pensar e agir, nos tornamos mais resilientes, flexíveis e capazes de enfrentar as adversidades com coragem e sabedoria. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Nietzsche e Dostoiévski

Esta semana estou fazendo um apanhado do que vi de interessante em minha releitura de "Crepúsculo dos Ídolos" e tive a ideia de compartilhar isso com vocês. 

Tratei aqui da admiração de Nietzsche por Tucídides e por Goethe, mas não poderia deixar de falar da apreciação do filósofo alemão pelo escritor russo Fiódor Dostoiévski.

Dostoiévsk foi um célebre escritor, filósofo e jornalista russo que produziu romances, novelas, contos, escritos jornalíticos e escritos críticos. Foi representante do realismo russo e trabalhou em seus livros temáticas fortes, concernentes ao ser humano como: assassinato, suicídio, humilhação, autodestrição, tirania, loucura, morte, liberdade, responsabilidade individual, religião...

Seus livros mais conhecidos são "Crime e Castigo"(1886) e "Os irmãos Karamazov"(1881), entretanto, para Nietzsche seu romance preferido é "Recordações da casa dos mortos"(1862) e em realação a este livro e a Dostoiévski, o filósofo afirma o seguinte no capítulo IX -"Incurssões de um Extemporâneo":

45 {...}

"- Dostoiévski, o único psicólogo, diga-se de passagem, do qual

tive algo a aprender: ele está entre os mais belos golpes de sorte

de minha vida, mais até do que a descoberta de Stendhal. Esse

homem profundo, mil vezes correto em sua baixa estima dos

superficiais alemães, percebeu de modo muito diverso do que

esperava os detentos siberianos entre os quais viveu por longo

tempo, autores de crimes graves, para os quais não havia mais

retorno à sociedade - como sendo talhados na melhor, mais dura

e mais valiosa madeira gerada em terras russas".

Ao conhecer os escritos de Dostoiévski, Nietzsche ficou extasiado, elencando-o para o seu seleto rol de gênios. Basta olharmos de perto o pensamento do escritor russo descrito em seus livros para entendermos o motivo do encanto Nietzsche. Por toda a produção literária de Dostoiévski, fica claro sua objetividade, a ausência de idealizações, a crítica sóciopolítica, seus heróis contraditórios, o ceticismo, o niilismo e o homem em conflito com deus. Essas são algumas das marcas que fizeram com que Nietzsche visse Dostoiévski com tão bons olhos.

O elo de ligação entre os dois é justamente a marca de uma existência angustiada guiada por questões acerca do bem e do mal, pecado e redenção e tantos outros dualismos que tiram o ser humano de seu eixo tornando-o um ser doente.

Para Nietzsche o sofrimento é necessário e pode ser usado como uma ponte para o crescimento interior. 

Ao escrever sobre o Amor Fati, Nietzsche nos convida a amarmos nosso destino, do jeito que ele se apresenta, seja com suas alegrias ou com suas agruras.

Lou Salomé, a russa que foi o grande amor de Nietzsche, foi uma mulher muito além de seu tempo e sobre ela escreverei um artigo mais adiante. Assim que os dois se conhecem, Nietzsche compartilha com ela seu pensamento em relação ao Amor Fati, e tão logo ela escreve um poema que o leva às lágrimas pois exprime de forma cálida o seu pensamento em relação à vida e neste momento vai de encontro com o pensamento de Dostoiévski. O poema chama-se "Hino à Vida" e diz:

"Tão certo quanto o amigo ama o amigo,

Também te amo, vida enigma

Mesmo que em ti tenha exultado ou chorado,

Mesmo que me tenhas dado prazer ou dor.


Eu te amo junto com teus pesares,

E mesmo que me queiras destruir,

Desprenderme-ei de teus braços

Como o amigo se desprende do peito amigo.


Com toda força te abraço!

Deixa tuas chamas me inflamarem,

Deicha-me ainda no ardor da luta

Sondar mais fundo teu enigma.


Ser! Pensar milênios!

Fecha-me em teus braços:

Se já não tens felicidade a me dar

Muito bem: dai-me teu tormento."

Para Nietzsche, a aceitação da vida como ela é, é parte essencial para que o ser se desenvolva plenamente e que o sofrimento molda espíritos livres. Certamente esta não é uma ideia agradável dentro dos moldes ocidentais de pensamento mas nos gera inúmeros questionamentos, e estes sim são ferramentas necessárias para o crescimento do ser.

Até breve...